22. dez, 2015



A noite tocava a hora do pousio.
As searas dormiam… enroscadas…
ora viravam para a direita, ora para esquerda, conforme a brisa lhes dizia.
Os ulmeiros, lá no alto, pareciam dançar ao som do coaxar das rãs, que numa fraga, pareciam namorar ao luar, num riacho que passava ali perto…
Percorri-te a distância de um olhar… as searas, continuavam para lá de ti, pareciam sorrir na maciez do toque, no manso e delicado roçar de corpos, no enlace apaixonado em que se aqueciam… ou talvez, apenas sorrissem o descanso, da espera de um novo dia.
O luar, profanamente ténue, apático, avivava indiferente a capa insípida do teu olhar. Elegias as sombras, olhavas furtiva… àqueles… cujos olhos te fitavam ébrios de desejo, teatralizavas mais os gestos, provocavas mais o andamento do passo, adocicavas as formas, os sinais, e mostravas a nume que existia em ti. O luar ganhava vida, e até mesmo o poente, parecia virar-se no inverso para te observar.
Querias ser as tardes de domingo, o destino do périplo dos sem destino, ocupar o pensamento vazio, querias viver, amar, adormecer, acordar, no empíreo, no profano, querias ser Deus, o diabo, a bênção, o pecado. Querias morrer, ressuscitar, querias ser todos, a todos te dar, querias ser os rios e no mar desaguar, querias repartir, ser mil, em todo o lado querias estar…
E saías vagueando, pelas sombras do luar…


Luís Paulo
16. dez, 2015

Tu és rosa,
És poema,
Poema, D`um poeta maior
Esboçada em alegria,
Tracejada com muito amor
És pétala colorida,
És vida que invade a minha vida,
És verbo de menina
És essência de mulher
És fragrância no teu âmago
És perfume que embriaga
És tudo o que um homem quer
Os montes
Os rios
Os vales
E até mesmo os próprios mares
Prostram-se perante ti
Porque és rosa
Rosa,
Nascida p`ra mim

Luís Paulo
13. dez, 2015


Terminava finalmente a espera.
Passos lentos, firmes, ecoavam a aproximar-se.
Pararam.
“Hoje tem o direito a eleger o jantar. O que vai escolher?”
Disse uma voz vaga.
O homem olhou-o com olhar glauco, triste, vazio, e assim ficou, sem nada dizer.
O outro, com ar grave, esperou uns segundos com deferência ao silêncio do homem, mas em vista da sua demora, forçou-se a intervir numa voz indulgente.
“Tem de me dizer se já escolheu algo para o jantar.”
O homem pareceu despertar dum sono inquieto, agitado, e numa voz sumida.
“Desassossego”
“Desculpe?”
“Podia-me trazer o livro do Desassossego? De Bernardo Soares?”
“Se é esse o seu desejo, posso claro, e para o jantar? Pode pedir o que quiser.”
“Basta-me o livro do Desassossego.”
“Mas tem de pedir algo para jantar. Tem de comer também”
“Poesia.”
“Alimentar-me-ei de poesia.”
Repetia o homem com voz polida e gasta.
O outro foi embora, levando com ele o ecoar dos passos que se afastavam.
Meneou a cabeça em comiseração.
“Coitado do velho, estes dezoito anos de espera enlouqueceram-no.”

Luís Paulo
13. dez, 2015

Sorriso bonito a outra margem.
O pequeno arvoredo,
espelhava no azul rosa das águas
o verde oásis, como uma exígua ilha.
Ao longe,
o contorno esguio dos prédios
dançava a dança das garças
nas ondas mansas do rio.
Sentado,
na baía do Seixal,
o homem era um poema triste.
Um rosto de dor.
E como aquele rio,
no sangue corria-lhe o amor e
no coração saía-lhe um grito de saudade.

© Luís Paulo


Luís Paulo